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História de verão: uma leve brisa

Luis Fernando Verissimo

Quando a Amanda começou a frequentar o bar da turma, trazida pelo Anselmo, só notaram a sua beleza. Ela era linda. Olhos claros, nariz perfeito. Aos poucos foram descobrindo suas outras virtudes. Principalmente os homens.

- Além de bonita, simpática.

- E simples.

- Mas não é burra.

- Nada. Tem conteúdo.

- E covinhas.

- O quê?

- Vocês não notaram? Duas covinhas. Quando ela sorri.

- E que sorriso!

- Que dentes!

- E os cabelos?

- Ô, Anselmo, de onde você descobriu essa mulher?

O Anselmo contou que a tinha conhecido na academia. Além de tudo, era esportiva. Não, não sabia o que ela fazia. Pesquisa antropológica, análise de sistemas, qualquer coisa assim. Não tinha detalhes.

As mulheres não estavam gostando de toda aquela atenção com a Amanda, mas não podiam protestar. Porque os homens tinham razão. A Amanda era fora do comum. E, segundo reconheceu a Michelle, a contragosto, “querida”.

Mas foi a Michelle que notou pela primeira vez.

- Vocês notaram que os cabelos dela se mexem com o vento?

- E o que que tem isso? – perguntou o Marcão. – Os meus também se mexem.

Mas a Michelle completou:

- Mesmo quando não tem vento...

- Tá maluca.

- Prestem atenção – disse a Michelle.


Naquele dia a Amanda chegou, beijou todo mundo, sentou-se, pediu uma cocadaieti, e depois se surpreendeu: por que estavam todos olhando para ela daquele jeito? Nada, nada. Todos disfarçaram. “É porque tá todo mundo apaixonado”, brincou o Anselmo. Mas a Michelle estava certa. Uma leve brisa batia no rosto da Amanda e fazia seus cabelos esvoaçarem suavemente. Era como se ela tivesse de frente para o mar, em vez de uma mesa de bar. E, durante o resto da noite, Amanda não notou a movimentação da turma ao seu redor e, sorrateiramente, ao redor do bar, tentando descobrir a origem daquela brisa que ninguém mais sentia, a brisa que só esvoaçava os cabelos delas. Não era corrente de ar. O bar não tinha ar condicionado. Pelas janelas não entrava vento nenhum. De onde vinha a leve brisa que só aumentava a beleza de Amanda?


- Vento no rosto, não dá – decretou a Heleninha, quando a Amanda foi embora. – Eu aguento tudo. As covinhas, tudo. Mas com vento exclusivo no rosto não há competição. É covardia.

As outras concordaram. Brisa permanente nos cabelos era demais. Mas de onde vinha a brisa? Surgiram várias teses.

- É truque. Ela tem um ventilador escondido em algum lugar.

- Onde?

- Sei lá. Ou tem alguém que segue ela, com um ventilador.

Ou então:

- É mágica mesmo. Além de tudo, ela é mágica.

- Bruxa, você quer dizer.

- Mágica – insistiu o Marcão, com o olhar perdido.

A última palavra foi da Michelle.

- Está bem que ela seja privilegiada. Mas brisa só no rosto dela, não!


As mulheres optaram por barrar a Amanda do grupo e ainda alertar o Anselmo, pois ninguém sabia de que outras bruxarias ela era capaz. Os homens discordaram com um voto em separado: a Amanda deveria continuar no grupo. Afinal, era só uma leve brisa. Se um dia o vento aumentasse, decidiriam o que fazer.


Domingo, 28 de janeiro de 2007.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.